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Memórias da Sónia

16. 06. 06

Aderi ao MRPP em Dezembro de 1975. 

Aderi por convicção e por acreditar num mundo novo. 

Trabalhei muito. As dúvidas começaram a instalar-se quando do apoio ao Eanes. Não entendia o rigor imposto nos comportamentos e nas exigências feitas. 

Era na época empregada de escritório. Interrompi o curso de Direito que só concluí depois de casar em 1981. Ia fazendo uma ou duas cadeiras por ano. Saí do PCTP/MRPP creio que em Julho de 1979 quando se deram os incidentes em torno de dinheiros. Trabalhávamos muito. Eram noites sem dormir e os funcionários do Partido recebiam tarde e a más horas, mal alimentados e mal vestidos. 

Não nos podíamos pintar. Mas eu sempre irreverente quando me apetecia, pintava-me e arranjava-me sempre que me apetecia. Mas eu tinha trabalho, recebia a horas-não era felizmente funcionária do Partido! Assisti na Voz do Operário à fundação do PCTP.

Recordo-me que aí num discurso empolgado o Arnaldo em defesa dos seus valores elogiou as camaradas mulheres por não serem burguesas e não usarem soutiens Peter Pan (não sei se a marca ainda existe, mas era a marca de roupa interior que eu usava na época). 

Enquanto entre os funcionários do Partido iam correndo rumores, que o Arnaldo frequentava a Tia Matilde, se fazia transportar em carros de luxo, fumava cigarrilhas ou charutos de luxo, dava gorgetas exorbitantes, alugara uma casa algures (soube anos mais tarde que na linha de Cascais) cujo valor mensal era superior no seu total aos dos 14 ou 15 funcionários que trabalhavam na Bica.

Comecei a interrogar-me porque lhe chamavam o "Grande Educador da Classe Operária". Nada me parecia bater certo. Na época saíu uma directiva cujo nome não recordo - mas que julgo que guardei - sobre as relações "ínvias" dos e das camaradas.

Decerto era nele que estava a pensar...Com efeito a sua fama era de desculpem-me a expressão de putanheiro (não quero ofender as mulheres que caíram nas suas malhas). 

O golpe final veio quando quis concentrar todos os dinheiros na Sede no Rato. E depois quem é que pagava aos funcionários na Bica. Fomos muito injustiçados na nossa saída maciça. Nunca mais li nenhum Luta Popular. Nunca quis saber o que diziam a nosso respeito. 

Continuo a encontrar-me de quando em quando, com amigos desses tempos. Nunca me arrependi de me ter vindo embora. Saímos quase todos ao mesmo tempo, mas não foi uma debandada organizada...Creio que todos nós estávamos fartos e desiludidos. 

Nada do que me contam agora é surpresa. Só constitui surpresa terem continuado lá tanto tempo...Esse energúmeno devia ser internado num estabelecimento psiquiátrico. Fundou (com outros) o Partido. Não tentem apanhar os cacos. 

Os trabalhadores merecem melhor e ainda acredito que um dia, que provavelmente já nenhum de nós vai ver, haverá um mundo melhor... Mas os vindoiros merecem que não os abandonemos como estão a ser abandonados os refugiados pela Europa, perante a indiferença quase generalizada do mundo. 

Como na Venezuela, como a vergonha do que se está a passar no Brasil ou em Angola. Provavelmente antes da Revolução que sonhámos ainda vamos assistir a uma 3ª guerra com meios e consequências imprevisíveis... 

Júlia Pires 

Director: Carlos Fidalgo - carlos.fidalgo.10@sapo.pt